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Sub-Saharian Africa : Angola : Interview with Carlos de Melo

Carlos de Melo
Director da Divisão de Sistems (SISTEC – Sistemas, Tecnologias e Indústria SARL)

Luanda - 2005-07-18

Carlos de Melo
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A Sistec é uma empresa que possui cerca de 6.000 clientes, aonde se incluem instituições estatais, organizações não governamentais, companhias petrolíferas e diamantíferas. Qual é a sua história? Quem foi o fundador? Como surgiu?
A Sistec teve origem na Protécnica, uma das primeiras empresas privadas novas do país, após a independência. Foi fundada pelo Sr. Rui Santos, em conjunto com alguns dos quadros que trabalhavam na antiga Protécnica e rapidamente se estabeleceu como uma referência de dinamismo e qualidade dos serviços e soluções que oferecia.

Poderia explicar-nos quais são exactamente os produtos que a Sistec comercializa?
A Sistec é mais conhecida por oferecer soluções nos ramos das tecnologias de informática e telecomunicações. Tem o estatuto de IBM Businees Partner, para além de outras parcerias nos ramos das tecnologias de informação e telecomunicações. Portanto, quando um cliente precisa de soluções integradas que envolvem tecnologias tão diversificadas como informática, telecomunicações, áudio e vídeo, etc., a Sistec tem estrutura para oferecer essas soluções.

A empresa tem outras divisões que hoje são tão importantes como a Divisão Informática que são, as Divisões Home ( JVC e Whirlpool ), Office ( Konica-Minolta, Riso e Beltrónica e Actiu ), Divisão Industrial ( metalo-mecânica ) e finalmente a Divisão Técnica (Shure, Behringer) onde se instalam e assistem sistemas de PA, FM, TV, etc.

Quantos têm e quais são os principais clientes?
A Sistec tem cerca de 6.000 clientes, como se referiu no início. Temos orgulho em poder contar uma carteira de clientes diversificada que inclui desde o cidadão anónimo até entidades tão importantes e prestigiadas como:

  • Bancos
  • Forças Armadas Angolanas
  • Sonangol
  • INATEL
  • AngolaTelecom

O surgimento de lojas e serviços de equipamentos informáticos e sobretudo Cyber-Cafés é visível em todos os bairros de Luanda, mas apesar disso ainda há uma procura grande dos serviços informáticos. Por causa disso pode dizer-se que a facturação da Sistec aumentou?
Felizmente conseguimos algum aumento de vendas de uma forma geral. A procura dos serviços na área de informática deve-se não só ao aumento do número de utilizadores de informática, mas também pelo reconhecimento da qualidade dos nossos serviços. Temos feito um esforço nesse sentido, num mercado muito competitivo, aonde a concorrência é muito grande e aonde os clientes são cada vez mais exigentes.

Poderia avançar o valor de facturação bruta anual da empresa?
No ano passado registamos cerca de dezoito milhões de dólares em vendas!

Poderia dar-nos uma ideia de quais são os vossos futuros grandes projectos?
A Sistec tem um grande prestígio e pretendemos aumenta-lo, melhorando a nossa oferta de produtos e serviços. Esta é a nossa principal preocupação. Por outro lado, queremos diversificar a nossa actividade com a entrada nos ramos hoteleiro e imobiliário. Estamos a fazer dois projectos na província de Benguela, uma na antiga fábrica de conservas Mampeza e outro na Equimina, aonde pretendemos construir uma zona turística, habitacional e comercial.
Ainda no ramo da construção, estamos a finalizar a construção da nossa sede.

O sector das Telecomunicações é considerado um dos que mais cresceu no Pais nos últimos dois anos. Pessoalmente, como avalia o sector das telecomunicações em Angola?
Mesmo sendo um país com muitas limitações de infra-estrutura, Angola tem tentado manter-se a par das novas tecnologias no domínio das telecomunicações. A massificação da telefonia celular é o caso mais visível desse esforço. Há inegáveis benefícios para a qualidade de vida do cidadão.

No que diz respeito a outras vertentes de telecomunicações, como o caso da telefonia fixa e Internet, as limitações são mais de natureza económica. As empresas têm que investir muito para muito pouco retorno. Isto limita à partida o apetite dos investidores e por conseguinte a expansão rápida destes serviços.

Na parte de serviços de difusão, a limitação é mais de ordem legal. Não foi ainda liberalizada esta componente das telecomunicações. O que se assiste é a um crescer de serviços oferecidos por empresas estrangeiras via satélite. O cidadão compra e usufrui de um produto que não acrescenta conhecimento tecnológico ao país. Talvez seja inevitável, mas quero acreditar que não tem que ser assim.

Angola apresenta actualmente um elevado deficit informático, onde os números dão conta da existência de apenas 25 mil usuários de Internet em 12 milhões de habitantes, enquanto a estimativa de computadores é de 250 mil para três milhões de habitantes. Quer dizer, há um deficit maior de computadores? Qual é o apoio do governo para remediar isso?
A limitação é principalmente estrutural. Não há acesso à energia. Portanto, só uma pequena parcela da população pode usufruir do acesso a computadores. Por outro lado, não se trata de um bem essencial. As pessoas têm necessidades mais imediatas para satisfazer.

O que é que o Governo pode ajudar? Acreditamos que o primeiro passo é investir numa rede energética de qualidade, ao memo tempo que se investe no sector da educação, de modo a tornar o computador como uma componente fundamental do ensino. Creio que em pouco mais de uma década se assistiria a uma expansão rápida do acesso à Internet e ás outras ferramentas das tecnologias de informação.

Para desenvolver uma actividade como esta que a Sistec faz, naturalmente passa por uma parceria estrangeira. Que tipo de parcerias a empresa tem a nível do mundo?

Angola ainda não produz, infelizmente, tecnologia de ponta. Portanto, tem que importar conhecimento, equipamento e em alguns casos, serviços. Temos conseguido ganhar a confiança das empresas e entidades com quem trabalhamos, que nos têm aberto as portas para empresas de topo, como é o caso da IBM, Kenwood, JVC, Gilat, Shure, etc. Dá-se o caso de agora serem as empresas estrangeiras a procurarem a Sistec para fazer parcerias! Não tem havido, no entanto, grande interesse em fazerem-se investimentos em Angola. A maior parte das parcerias é estabelecida a nível comercial e técnico, apenas.

Não existe cooperação com empresas americanas?
Como referi atrás, a cooperação é mais ao nível comercial, no mercado aonde a Sistec está. Angola saiu há pouco tempo de uma guerra de mais de 30 anos. Mesmo assim, há muito interesse em cooperar com Angola por parte de empresas dos Estados Unidos. Mas infelizmente esse interesse é a nível comercial, apenas. A creditamos que irá mudar muito em breve e essas empresas olharão para Angola como uma boa oportunidade para investir a médio/longo prazo.

As empresas americanas e os métodos americanos de exportação, têm que também que mudar de postura. É muito dificil obter coisas dos EUA. Para além de que as empresas americanas, no geral, têm pouca atenção para o customer care e para a assistência técnica. Estando num País onde 80% dos problemas técnicos estão relacionados com energia, é fundamental que tal tipo de apoio e atitude positiva exista no relacionamento Sistec/Fornecedor, diálogo que não temos conseguido com empresas americanas.

Angola vive um momento crucial na sua história com a reconstrução do país. Em sua opinião quais são as forças e debilidades do país e quais são as suas prioridades?
Angola potencialmente é muito rica, mas de facto é muito pobre. Tem muitas riquezas, para além do petróleo e diamantes. É riquíssima em recursos hídricos, por exemplo. O solo é fértil. No entanto, é pobre porque a riqueza per capita é muito baixo por habitante. Para converter essa imensa riqueza potencial em riqueza real a principal aposta tem que ser na educação. Cada ano que passa sem se investir na educação é um ano de desenvolvimento adiado. A educação tem que ser a prioridade. Num segundo patamar de prioridades está a saúde e as infra-estruturas, como a energia, água, estradas e caminhos-de-ferro. É aqui que o governo deverá investir.

Penso também que a comunidade internacional não pode deixar Angola entregue a sí própria. Um Plano Marshal à dimensão de Angola fazia todo o sentido. Ainda por cima, sendo Angola um país viável. Não esqueçamos que quem pagou o grande preço da aplicação da resolução 435 sobre a independência da Nambia bem como a aplicação das resoluções sobre one man/one vote na Africa do Sul foi Angola. Existe muito de injustiça na forma como Angola tem sido tratada, para não esquecer o fenómeno que ocorreu após os acordos de Nova York onde a comunidade internacional assumiu compromissos e se retirou deixando Angola numa situação muito critica.

Estamos em Angola para promover o pais e que os investidores americanos sejam informados do potencial do mercado angolano. Qual seria a sua mensagem final para os empresários estrangeiros e leitores da nossa revista U.S. News & Worlds Report que queiram investir em Angola?
O que aconselho é que venham ver Angola com os próprios olhos. Que peçam informações à embaixada dos E.U.A. em Angola, bem como à nossa embaixada nos Estados Unidos. Angola não é apenas uma promessa longínqua. Para além disso achamos que tudo o que tem sido pedido tem sido dado. Criaram-se métodos, programas especiais para investores. As leis do trabalho são até bastante boas para as entidades patronais.

Os Países fazem-se com pessoas e empresas que se fixam. Angola está num estágio onde estão criadas as condições para quem se quiser fixa. É uma realidade. Sugerimos fortemente que venham, vejam e invistam seguindo e cumprindo as leis do Pais.

   
 
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