Como é que foi fundado as Edições de Angola e quando é que aconteceu?
As EAL foram fundadas no período pré colonial, por iniciativa de um grupo de sócios dos quais, um se destacou (Silvino Norberto), por ter assumido a iniciativa de, contra a corrente das circunstãncias de então, ter adquirido a quota participação dos demais.
Quais foram as dificuldades que tiveram diante das situações de conflitos?
Seria extremamente fastidioso a enumeração das vicissitudes decorrentes do período de instabilidade social que o País viveu.
Porque parte integrantes do tecido económico do País, vivemos e padecemos das “maleitas” decorrentes de um conflito: Mercado praticamente inexistente e uma enorme dificuldade na obtenção de matéria prima.
Como é que as EAL conseguiu se impor no mercado para merecer a distinção que foi em Genebra de melhor qualidade de edição?
Com uma receita antiga que muitos teimam ainda em não seguir: apostando na qualidade, sem medir a sacrifícios e uma vontade férrea em vencer.
Hoje, quais são os serviços mais solicitados?
Estamos, hoje, habilitados á realização de qualquer tipo de serviço nesta área. Entretanto a especificidade do mercado nacional exige de nós uma produção constante de revistas, boletins, blocos, agendas etc, etc...
Na sua opinião, como é que os livros são muito caros em Angola, mesmo tendo madeira em abundância de certa forma?
É de facto bastante elevado o número de razões que justificam esta ocorrência, mas na inexistência de uma indústria transformadora, por um lado, e na verificação de uma política de impostos que não protege a produção nacional, decorre a necessidade do recurso á importação para colmatar-se esta lacuna. Eis, pois os principais motivos que justificam o preço elevado dos livros.
Qual seria a solução neste caso?
A inversão deste status quo teria que ser paulatina e faseada. Num primeiro momento caberia ao Estado subsidiar o custo da produção dos mesmos, facilitando-se a sua aquisição por parte do cidadão nacional; Em paralelo incentivando-se a produção, entre outras modalidades, cobrando impostos mais altos aos produtos importados e da mesma natureza; Criando-se políticas que permitam que o ciclo completo da produção se verifique no território nacional, desde a produção de matéria prima á sua transformação e posterior distribuição; Alteração da política de créditos com juros mais baixos. Este esforço já tem vindo a fazer-se.
Tem colaboração com revistas específicas ou não?
Não temos uma parceria exclusiva com qualquer revista. A dinâmica do próprio mercado tem vindo a determinar a nossa actuação. Entretanto, ultimamente, temos merecido a preferência dos gestores da revista Economia e Mercado que era impressa em Portugal.
Há perspectivas de crescimento desta área?
Todo o País se encontra em “polvorosa”. A Paz criou uma dinâmica própria, e neste “lento” mas irreversível despertar se alicerçam as expectativas de todos os agentes económicos. Nas artes gráficas a expectativa é, também, de facto enorme, embora se tenha plena consciência do enorme trabalho que urge se realize.
Qual é o contributo das EAL para ajudar a consciencializar as pessoas depois de tanto tempo de guerra?
Este propósito não é de facto parte integrante do nosso objecto social. Pelo que só por interposição alheia se poderá manifestar a nossa solidariedade. Assim quando solicitados por Instituições que promovem actividades de natureza social, e amiúde o somos, temos oferecido os nossos serviços a custo zero; outras vezes publicitamos essas diversas iniciativas, igualmente a custo zero; noutras ocasiões e dada a dimensão do solicitado o custo que atribuímos é meramente simbólico. Apenas nestes termos se caracteriza a manifestação da nossa solidariedade, enquanto agentes económicos.
Tem recebido algum apoio do Ministério da Educação?
Por enquanto não. É entretanto visível o esforço que o Governo tem encetado, no sentido de colocar esta actividade nos “carris”. Promovendo encontros com os profissionais do sector, já se debate e analisa a estratégia para produções futuras. É de facto uma manifestação visível da real disponibilidade do Governo.
Tem impresso livros de pessoas estrangeiras? Alguma vez o fizeram?
Sim, enumeras vezes. Nomeadamente autores oriundos dos países africanos de língua oficial portuguesa.
Quantos empregados vocês têm?
Se considerarmos um número de funcionários integrantes noutra unidade nossa de objecto social complementar, então temos engajados no nosso projecto um leque de 149 funcionários.
Como é feita a formação dos vossos funcionários?
A formação realiza-se internamente. Os técnicos mais antigos e qualificados transmitem os seus conhecimentos aos mais novos, no quadro da dinâmica do próprio serviço, mas em regime de estágio específico de formação.
Num mundo globalizado como é hoje, as empresas trabalham quase sempre em regime de parcerias. É o caso da EAL, também?
Não. Tudo é realizado pelo know how interno.
Mas estão abertos a parcerias?
Se se verificarem como uma mais valia para a empresa, a receptividade será natural.
E qual o perfil do parceiro?
O perfil ideal do parceiro, é sendo mesmo parceiro, colaborando connosco, emprestando-nos o seu saber, integrado numa das nossas equipes. Tratando-se de uma empresa familiar, com um modus operandi sui generis, a presença de um sócio constituir-se-ía, estamos certos, num elemento nocivo, diremos mesmo, pernicioso ao normal funcionamento da empresa.
E as províncias também têm solicitado a edição ou impressão dos seus livros?
Não. Já se ensaiaram algumas iniciativas, nomeadamente com a Endiama nas Lundas, mas a instabilidade social de então tornou inexequível tal intento. Temos, entretanto, conhecimento da presença de alguns ex colaboradores nossos nas províncias.
Poucos jovens lêem. Na sua opinião, o que é necessário fazer para incentivar a leitura?
A sociedade está enferma. E paulatinamente desperta deste estado “comatoso” a que se acometeu. O desinteresse dos jovens pela leitura é um sintoma da “doença”.
Para nós teríamos como primeiro passo o conseguir-se uma produção de livros consideravelmente mais barata, para que as pessoas os comprassem: a) Incentivando-se a produção nacional;
Desta forma, aumentando-se a concorrência interna, e a consequente oferta, os preços tenderão a baixar, por um lado; por outro criando-se mais emprego, cria-se riqueza e esta leva á poupança.
O excedente, assim conseguido, seria canalizado também para a aquisição de livros, estamos certos.
Mas existem jornais e revistas baratas?
Nada se poderá considerar barato, numa sociedade em que os seus cidadãos têm como prioridade a obtenção dos produtos de primeira necessidade. Esta postura é um sinal inequívoco dos parcos recursos de que dispõem. De facto os salários auferidos pela generalidade dos cidadãos não é compatível com o custo de vida, pelo que a leitura ainda é uma necessidade de quarta categoria.
Já propus a vários editores a produção de um excedente de 10% relativamente á encomenda, para ser oferecida em creches, lares, hospitais, escolas, bibliotecas e outros centros de formação, mas mesmo assim a receptividade foi muito reduzida, tendo conhecido apenas a disponibilidade de uma Escritora.
Gostaria de ouvir a sua opinião sobre as vantagens para se investir em Angola?
- A paz é um valor que todos aprendemos a respeitar. Ela fez de todos nós um povo extraordinário, humilde, incrivelmente voluntarioso e sedento de aprender.
- Se ao elemento humano adicionarmos a circunstância de que, tudo está por fazer, neste enorme País, do mais básico ao mais complexo:
Eis dois ingredientes básicos, para qualquer empreendimento fadado ao sucesso...