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Como o senhor, que é um dos fundadores
do Partido dos Trabalhadores, analisa os
primeiros meses do governo Luiz Inácio
Lula da Silva?
Ministro Luiz Dulci - Sem triunfalismo,
eu me sinto bem, porque, se não fizemos
ainda tudo aquilo que gostaríamos,
acho inegável que, nestes primeiros
meses, o governo liderado pelo Partido dos
Trabalhadores (PT), que tem como presidente
um ex-operário metalúrgico
com apenas oito anos de formação
escolar, mostrou que os trabalhadores são
capazes de governar o Brasil. E são
capazes de governá-lo bem. Metade
dos ministros tem origem sindical, o que
é o meu caso também. Não
estou dizendo que seja um governo perfeito,
sem falhas ou limitações.
Temos muitos desafios importantes pela frente,
mas o estigma que se procurava criar, de
que caso vencêssemos as eleições
haveria o caos, não vigorou. O que
aconteceu foi justamente o contrário:
estamos recuperando a estabilidade que o
Brasil perdeu no ano passado, durante um
governo de pessoas consideradas capazes
e de elite. Se tivesse que se dizer qual
é o significado desses primeiros
meses de governo é o de que os trabalhadores
estão capacitados a governar o país.
Isso aumentou a legitimidade do governo
para fazer o que precisa ser feito. As pesquisas
de opinião comprovam isso: o governo
continua com muita credibilidade e também
com popularidade, ainda que a nossa preocupação
maior não seja com a popularidade.
A nossa preocupação é
com a legitimidade e com a sustentação
social. Queremos que a sociedade saiba que
o governo está fazendo o que deve
ser feito. Não queremos uma popularidade
superficial, de marketing. Precisamos ter
uma humildade grande onde os principais
desafios ainda precisam ser superados. Eu
tenho um modesto orgulho pelo que nós
fizemos porque, em outros países
da América Latina, forças
de esquerda assumiram e não conseguiram
dirigir o processo. O presidente Lula não
só conseguiu dirigir o processo como,
além de liderar os setores populares,
lidera hoje, também, boa parte das
elites brasileiras.
A economia brasileira está em
condições de voltar a crescer?
Ministro Luiz Dulci - Uma parte dos capitais
que saíram do país no ano
passado já voltou. Empresas brasileiras
têm conseguido fazer captações
no estrangeiro. No geral, são indicadores
bastante positivos. Assim que o governo
considerar que a estabilidade é suficientemente
sólida, por exemplo, para dar início
a uma redução gradual, cautelosa,
mas efetiva da taxa de juros - que nós
tivemos que aumentar num primeiro momento
para combater a inflação sobretudo
_ queremos dar início gradativamente
à adoção de uma política
de crescimento econômico, de geração
de emprego, de distribuição
de renda, que é o nosso objetivo
para quatro anos. Além das medidas
econômicas que tomamos, são
fundamentais para consolidar a confiança
internacional e nacional as reformas da
previdência, tributária e depois
outras que virão. Nossa política
é de recuperação da
estabilidade, e está sendo bem sucedida.
Há indicadores muito concretos, muito
palpáveis, do sucesso dessa política
de recuperação da estabilidade.
O nosso objetivo é que o país
tenha estabilidade, conserve a estabilidade.
Não queremos trocar a estabilidade
pelo crescimento, o que considero um falso
dilema. Queremos combinar crescimento com
estabilidade.
Como será o Plano Plurianual,
que o senhor coordena na área de
participação social?
No Plano Plurianual (PPA), queremos debater
com o mundo empresarial, com os trabalhadores,
com todas as instituições
da sociedade brasileira, a agenda do crescimento
como um desdobramento natural da política
de recuperação da estabilidade
perdida. Queremos discutir no PPA justamente
isso. Que política industrial, por
exemplo, será necessária?
Como incrementar ainda mais as exportações?
Como combinar o incremento das exportações
com a necessária expansão
do mercado interno? E também uma
política nacional de desenvolvimento
regional, porque estamos tentando evitar
a guerra fiscal entre os Estados. Acho que
vamos conseguir isso agora com a reforma
tributária. Os debates do PPA serão
para que o país volte a crescer tendo
objetivos claros a curto, médio e
longo prazo. O presidente Lula durante a
campanha disse que o Brasil precisava voltar
a ter planejamento estratégico. O
exemplo mais forte foi o do presidente Juscelino
Kubsticheck, que teve o seu plano de metas
influindo muito além do período
do governo dele. Ele fez um plano para cinco
anos de governo, na perspectiva de 20, como,
aliás, fazem os países mais
importantes do mundo. O planejamento não
é só para um período
de governo, é para o país.
Os objetivos não são objetivos
apenas do governo Lula, são objetivos
do país. Por isso, estamos fazendo
um esforço para construir consensos
em torno desse planejamento estratégico.
Construir consenso na sociedade com o empresariado
dos diferentes setores, com centrais sindicais,
mas também no mundo político
com os partidos da base do governo e, se
possível, com os partidos de oposição.
Entendendo que para ser objetivos do país
não podem ser apenas do Governo Federal,
têm que ser compartilhados o máximo
possível pelos governadores de estado,
pelos diferentes partidos políticos,
pelo Parlamento. O ideal é que os
objetivos mais gerais do país sejam
compartilhados, que sejam de união
nacional.
As propostas de reformas previdenciária
e tributária, por exemplo, demonstraram
que é possível obter um consenso
bastante amplo. Unanimidade, não.
Na democracia não há unanimidade.
Nem deve ser buscada. Mas existe um consenso
bastante amplo, que vai muito além
do PT, dos partidos da base do governo e
envolvendo setores que inclusive votaram
em outros candidatos na eleição
presidencial. Esse é o objetivo que
temos com o PPA. Daí o presidente
ter dado início ao processo convocando
uma reunião ministerial específica
sobre o Plano Plurianual. Todos os ministros
vão participar de fóruns de
discussão nos Estados. A Secretaria-Geral
da Presidência, eu, pessoalmente,
visitei as 30 maiores entidades representativas
nacionais tanto de empresários, trabalhadores,
igrejas, da intelectualidade, etc. A receptividade
tem sido muito boa. Os resultados poderão
ser históricos: poderão assegurar
que o país volte a crescer, como
já cresceu em alguns períodos
do século XX, e possa superar desafios
crônicos como a questão da
fome, da miséria, da violência.
Nós vemos pelas pesquisas de opinião
que a grande maioria dos brasileiros não
quer perder a oportunidade histórica
e acha que, se não aproveitarmos
bem agora, poderemos não ter outra
oportunidade nas próximas décadas.
De certa forma, o Brasil tem a sua grande
chance neste momento. É uma opinião
inclusive de quem não votou no presidente
Lula.
Como vocês buscam esse consenso
nacional, inclusive dentro do partido?
Ministro Luiz Dulci - A nossa opinião
sobre essa questão evoluiu, pois
o PT tem 23 anos de vida. Sobretudo no período
inicial, na década de 80, tínhamos
uma visão de que bastaria apresentar
o nosso programa na disputa eleitoral, participar
do processo democrático e, se vencêssemos
as eleições, com a legitimidade
da vitória eleitoral aplicar o nosso
programa. A nossa experiência prática
em governos de estado, em prefeituras _
e mesmo a análise que fizemos de
governos anteriores, que tentaram fazer
transformações mais profundas
na sociedade brasileira _ nos mostrou que
é fundamental vencer as eleições,
mas não é suficiente. Para
superar obstáculos históricos
(alguns são seculares), para atender
a expectativa de dezenas de milhões
de pessoas, é preciso mais do que
ganhar as eleições, é
preciso agregar forças. É
preciso ter o apoio ativo da maioria da
sociedade. Se possível, atrair setores
que foram adversários nas eleições.
É o caso das reformas. A maioria
dos governadores de Estado não é
do PT, mas partimos do princípio
de que eles também têm interesse
nas reformas. Os Estados brasileiros têm
uma situação previdenciária
gravíssima, mais grave do que a do
governo federal. Então, buscamos
os interesses comuns e tomamos a iniciativa
de dialogar. Apostamos no diálogo.
A nossa avaliação é
de que não se constrói consenso
sem diálogo. Fomos criticados por
setores das elites tradicionais brasileiras,
porque estaríamos fazendo reuniões
demais, dialogando excessivamente. Isso
parte de quem tem uma visão verticalista,
uma visão autoritária da vida
democrática, e nós evoluímos
neste sentido. Por exemplo, entendemos que
os governadores têm influência
no Congresso Nacional, têm peso nas
decisões políticas do país,
foram eleitos por decisão popular
no mesmo dia em que o presidente Lula foi
eleito. Então, há legitimidade,
é preciso construir com eles também.
Criamos o Conselho de Desenvolvimento Econômico
e Social (CDES) para reunir empresários
e trabalhadores, que no Brasil não
têm tradição de dialogar
a não ser sobre questões salariais,
mas não têm tradição
de dialogar sobre os desafios do país.
As reformas estão sendo debatidas
com liberdade no Congresso Nacional, mas
já com um forte apoio político
e social. Se não fosse assim, determinadas
minorias corporativas poderiam inviabilizar
as reformas ou retardá-las. Com o
consenso social que conseguimos, as pesquisas
de opinião mostram que de 70% a 80%
da população brasileira apóiam
as reformas. No mundo empresarial também.
No mundo sindical, com algumas alterações,
mas apóiam. No parlamento também.
Hoje, as condições são
outras. O presidente Fernando Henrique Cardoso
tinha maioria no parlamento e tentou aprovar
diretamente as reformas, sem construir um
consenso social maior, e não conseguiu.
O senhor acredita que este governo vai
conseguir aprovar as reformas no Congresso
Nacional?
Ministro Luiz Dulci - Acreditamos que sim.
Enviamos as propostas em quatro meses, o
que é pouco para um mandato de quatro
anos, e para reformas tão profundas.
Graças a um forte investimento no
diálogo. O presidente Lula tomou
a iniciativa de convidar os 27 governadores
de Estado para virem a Brasília discutir
as reformas. Na ocasião, muitos observadores
e analistas políticos disseram que
era um erro, porque isso atrairia para o
governo federal todas as reivindicações
dos governos de Estado, demandas econômicas
e financeiras, já que os Estados
brasileiros estavam em condições
muito precárias. Então, o
presidente Lula disse: se eu não
tiver coragem de fazer essa reunião,
as reformas não acontecerão.
Dois mil prefeitos do Brasil inteiro, a
maioria de oposição a nós,
estiveram aqui.Da mesma maneira, disseram
que o presidente seria objeto de uma tempestade
de reivindicações. Como os
governadores, os prefeitos fizeram várias
reivindicações, mas isso não
impediu o presidente de mostrar, nos dois
casos, que as reformas eram importantes
não só para o governo federal,
mas também para os outros níveis
de governo. Fizemos uma plenária
em São Paulo com as centrais sindicais,
com os 300 principais dirigentes sindicais
das sete centrais nacionais, por iniciativa
nossa. Disseram a mesma coisa: os sindicatos
vão fazer pressão, vão
exigir... O presidente falou: que exijam,
mas eu preciso avançar com o processo.
Fizemos uma reunião com os deputados
da base de apoio do governo e com as bancadas
de oposição sobre as reformas.
É, ao mesmo tempo, uma postura muito
ousada de quem toma a iniciativa, de quem
não tem medo de ser objeto de polêmicas
e de questionamentos, mas também
é uma postura de se construir o consenso.
Os governadores sugeriram acréscimos
às reformas, que nós incorporamos.
Sobre o que não aceitamos, falamos
com franqueza. Nós acreditamos que
esse processo está dando certo. As
reformas estão sendo possíveis,
não apesar do diálogo, mas
por causa do diálogo. O diálogo
tem sido o principal instrumento do consenso.
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O governo pode oferecer segurança
ao investidor internacional, mesmo com os
debates internos no PT?
Ministro Luiz Dulci - O PT tem uma tradição
notória de intenso debate interno
público. O debate nunca foi a portas
fechadas. Todas as grandes decisões
do partido foram debatidas publicamente
desde a fundação. É
diferente de muitos partidos, principalmente
os da esquerda ortodoxa, nos quais só
existia a palavra do secretário-geral
do partido. No PT não é assim.
Nós chegamos a fazer um congresso
partidário nacional a cada ano nos
últimos 15 anos. O voto para eleger
a direção nacional é
secreto e direto. O partido tem uma tradição
de intenso debate e, depois que se decide
pela maioria, todos votam na posição
da maioria. Foi o que acabou de acontecer
na aprovação da medida que
abre caminho para a regulamentação
do sistema financeiro nacional.
É uma falta gravíssima no
PT desrespeitar a decisão da maioria.
Vários deputados ao longo da história
do partido foram afastados ou saíram
por desrespeitarem a decisão da maioria.
Não é decisão da cúpula,
é decisão da maioria do partido.
Sempre tivemos minorias. O PT é um
dos poucos partidos do mundo em que a direção
é composta por proporcionalidade
e o direito de tendências internas
é institucionalizado. Se uma tendência
tiver 5% dos votos, terá pelo menos
5% da direção. Eu considero
que, nos padrões partidários
internacionais, trata-se de um partido de
funcionamento bastante democrático
e bastante livre também. O presidente
da República continua fazendo parte
da nossa direção nacional,
os ministros continuam na direção.
Vamos lá, ouvimos as críticas
todas, participamos do debate. Depois que
decidiu tem que cumprir. É isso que
até hoje aconteceu e terá
que acontecer no próximo período,
porque nenhuma das decisões que o
partido está imprimindo à
vida brasileira é inédita.
O programa foi decidido em congressos. Tudo
foi debatido, votado e democraticamente
decidido pela base do partido, e se transformou
na política do governo hoje. A minoria
era favorável a que o vice-presidente
fosse um sindicalista ou trabalhador rural.
Defendemos que fosse uma liderança
empresarial, a base votou e aprovou. A minoria
defendia ruptura com o sistema financeiro
internacional, defendia posições
radicais sobre questões como a dívida
externa, Fundo Monetário Internacional,
etc. Suas propostas foram todas derrotadas
democraticamente pela base do partido. Por
isso afirmo que não há nenhuma
posição que o governo Lula
esteja defendendo agora que não tenha
sido debatida com a base e votada pela base
do partido em quatro mil municípios
brasileiros. A ampla maioria dos deputados
e dos senadores do PT é favorável
às reformas e às propostas
do governo. É uma linha que tem hegemonia
consolidada no partido. O PT não
mudou depois que chegou ao governo; foi
evoluindo ao longo dos seus 23 anos.
Alguns órgãos da imprensa
internacional apresentavam o PT como se
fosse um partido revolucionário.
Não, o PT sempre foi um partido democrático
que já nasceu disputando eleições.
Já nasceu registrando o seu programa
na Justiça Eleitoral brasileira.
Já nasceu aceitando as regras do
jogo democrático. É um partido
de esquerda, mas nunca teve programa revolucionário
no sentido que vários partidos da
América Latina tiveram. Sempre foi
um programa de reformas estruturais para
o Brasil pela via democrática eleitoral.
Isso é muito significativo, principalmente
se considerarmos que, quando o partido nasceu,
a democracia brasileira era muito precária.
Digo isso com a experiência quem foi
eleito deputado federal pela primeira bancada
do PT, nas eleições de 1982.
Estávamos ainda na transição
do regime militar para a democracia e havia
muitas restrições: não
havia propaganda eleitoral, não havia
acesso a TV e ao rádio. Mesmo assim,
o PT optou pela participação
democrática desde a sua origem. Tínhamos
algumas posições que hoje
não temos mais. Em 1980, o partido
defendia a suspensão do pagamento
da dívida externa. A posição
foi se alterando ao longo do tempo e, já
nas eleições de 1998, a nossa
posição era a mesma de hoje,
ou seja: se o Brasil participa de um sistema
econômico e financeiro internacional,
os contratos devem ser respeitados. Aquela
posição já tinha mudado
há quatro anos atrás, outras
mudaram há dez anos, outras mudaram
mais recentemente. A defesa da reforma tributária
é uma posição que o
PT tem há 10 anos. O PT foi o primeiro
partido político brasileiro, ainda
na oposição, a apresentar
uma proposta de reforma previdenciária,
em 1992. O que aconteceu foi uma evolução
pública de posições,
sempre em documentos, em artigos, em declarações.
Não há nenhuma mudança
arbitrária, decidida por uma cúpula
à revelia da base. Foi uma evolução
feita junto com a base do partido. A nossa
maioria é de pelo menos 70% no partido.
Qual a segurança e a vantagem
que o investidor internacional tem de aplicar
seu dinheiro no Brasil?
Ministro Luiz Dulci - A vantagem é
que o Brasil é um país grande,
populoso, que já tem um mercado interno
bastante importante e pode expandir esse
mercado interno. Há também
muitos investimentos estrangeiros voltados
para a exportação. O Brasil
tem conseguido um desempenho nas exportações
bastante bom na agricultura, mas também
em vários ramos da indústria.
O potencial econômico do Brasil é
muito grande e não há nenhum
analista que não reconheça
que o país ainda pode crescer muito.
Tem um horizonte de expansão tanto
interna quanto externa muito grande. Por
outro lado, as empresas estrangeiras podem
fazer parcerias com as empresas brasileiras.
A legislação permite e o governo
tem esse interesse. É um país
de democracia consolidada, a transição
de um governo para o outro mostrou isso.
As instituições são
muito fortes no Brasil. Isso já tinha
ficado muito claro quando o presidente Collor
sofreu o impeachment (1992). A democracia
brasileira demonstrou muita vitalidade.
Um presidente brasileiro foi destituído
sem que houvesse crise institucional e agora
houve a alternância de poder de uma
maneira muito civilizada e republicana.
O Brasil está inserido no mundo de
maneira ativa e criativa nas relações
comerciais e diplomáticas. A nossa
política externa não é
baseada em critérios ideológicos
e sim em critérios de interesse do
Brasil e da busca de parcerias e de cooperação.
Uma das primeiras visitas que o presidente
Lula fez depois de eleito foi a convite
do presidente Bush. Somos um partido de
esquerda, o presidente Bush é republicano,
isso não impediu que se criasse uma
empatia entre os dois, inclusive pessoal.
Hoje, 25% do comércio exterior brasileiro
são com os Estados Unidos. Nós
gostaríamos que fossem 30% ou 35%,
porque o nosso interesse é ampliar
a corrente de comércio. Ao mesmo
tempo, estamos buscando resgatar o Mercosul
e consolidar a presença do Brasil
na América Latina, mas sem falsas
contraposições ideológicas.
É uma questão de comércio
exterior, de interesses dos países.
Temos uma boa relação com
a Europa e uma intensa relação
com a China. Nos últimos meses, o
comércio brasileiro com a China passou
a ser maior do que o comércio com
o Japão. A mesma coisa com a Índia,
com a Rússia, com a África
do Sul. Acreditamos na inserção
do Brasil num mercado complexo globalizado,
cujo acesso não é fácil,
pois há o protecionismo de países
ricos. Ao mesmo tempo que dialogamos na
busca de superar esses obstáculos
às nossas exportações,
também estamos buscando abrir novos
mercados. Trata-se de uma política
transparente. Essa atitude internacional
respeitosa, cooperativa, não é
passiva, não se trata de um país
que se julga à margem do processo.
E sem arrogância, porque não
pressupomos que o Brasil seja um líder
mundial, mas achamos que pode ter um papel
criativo. A presença do presidente
Lula em Davos foi neste sentido. Ele não
exigiu, não atacou e nem criou nenhum
antagonismo desnecessário, mas expôs
o pensamento do Brasil.
Eu acho que a confiança nacional
e internacional já voltou por causa
dessa atitude de clareza e pretendemos seguir
nesta linha.
Como vocês vão incentivar
o crescimento econômico do país?
Ministro Luiz Dulci - No mundo de hoje,
e para um país como o Brasil, não
adiantaria crescer desorganizando a nossa
vida econômica. É preciso ter
uma economia em ordem para crescer de modo
sustentável. Não queremos
crescer três ou quatro meses apenas.
O Brasil precisa crescer quatro, cinco,
seis, sete anos, como já cresceu
em outros períodos do século
XX, para ampliar as riquezas disponíveis
no país, gerar empregos na escala
necessária. O Brasil tem a necessidade
de 10 milhões de empregos. Sem crescimento
econômico esses empregos não
serão criados. Mesmo com o crescimento
econômico será preciso ter
ainda políticas muito criativas e
lúcidas para gerar empregos principalmente
para os jovens. Nosso objetivo é
crescer com estabilidade. A economia brasileira
viveu uma crise financeira muito aguda,
especialmente no ano passado, mas é
uma economia bastante sólida. Temos
uma agricultura muito dinâmica e competitiva
no mercado internacional. Ela é responsável
por boa parte do saldo comercial do país,
com bastante agregação de
tecnologia. Eu não diria que todos
os setores da indústria brasileira
são internacionalmente competitivos,
mas vários deles são. O Brasil,
por exemplo, é competitivo na indústria
de aeronaves. É competitivo na indústria
siderúrgica. Temos um setor de serviços
bastante bom. Os bancos são sólidos.
Criadas as condições macroeconômicas
para o país voltar a crescer a economia
brasileira vai deslanchar. É evidente
que queremos coordenar esse crescimento,
democraticamente, sem dirigismo estatal,
dialogando com a sociedade. O que impediu
o Brasil de crescer foram vulnerabilidades
macroeconômicas e o fato de que as
reformas estruturais não foram feitas.
A nossa indústria tem uma capacidade
ociosa importante, ela pode produzir e vender
mais. Não há dificuldades
com a capacidade instalada da economia brasileira,
ao contrario de outras economias emergentes
que não se estruturaram e não
absorveram novas tecnologias e, portanto,
não são competitivas no mundo.
A economia brasileira é predominantemente
competitiva. Queremos fortalecer as exportações
e a pequena e média empresa, mas
não uma coisa em detrimento da outra.
Nós achamos que essas duas coisas
devem se combinar porque a pequena e a média
empresa vendem para o mercado interno, têm
menos tecnologia agregada, mas absorvem
muita mão-de-obra, contribuem muito
para dinamizar o mercado de trabalho. Além
disso, estão bem distribuídas
pelo território e asseguram o equilíbrio
regional; isso reduz contrastes num país
de dimensões continentais. Queremos
tornar as pequenas empresas competitivas
aqui e no exterior. O crescimento virá
do crédito, do acesso aos mercados.
O tempo do dirigismo estatal na economia
brasileira já passou. O estado contribui
sobretudo com infra-estrutura, com logística,
linhas de financiamento e ajuda na busca
de mercados internacionais. Tudo isso combinado
com políticas de geração
de empregos e de distribuição
de renda. Nós defendemos que o estado
tenha um papel sem ser empresário.
O estado deve prestar serviços de
saúde, de educação,
sobretudo para as camadas de baixa renda,
ter uma política cultural. Não
pretendemos reestatizar empresa nenhuma.
Por outro lado, o estado não deve
ser apenas um observador, pode coordenar,
estimular determinados setores, ter políticas
de empregos no setor privado. Queremos concentrar
os recursos orçamentários
do estado na prestação dos
serviços públicos essenciais
e em determinadas áreas de infra-estrutura
e de logística.
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