Como funciona o Plano Nacional de Turismo?
Walfrido dos Mares Guia - O Plano Nacional
de Turismo contempla um conjunto de ações
nos níveis federal, municipais, estaduais
e pela iniciativa privada para que possamos
atingir algumas metas que são extremamente
desafiadoras. A primeira meta é a
geração de um 1,2 milhão
de empregos no Brasil. A segunda meta é
atrair 9 milhões de turistas estrangeiros
até 2007 que gerarão US$ 8
milhões de divisas para o país.
A outra meta seria incentivar que os brasileiros
aumentassem de 40 milhões para 65
milhões até 2007 o número
de desembarques nos aeroportos domésticos
no sentido de impulsionar de uma maneira
extremamente forte o turismo interno. Nós
queremos dar uma dimensão muito positiva
ao brasileiro trabalhador para que possa
conhecer o país.
Para que a gente consiga essas metas de
geração de emprego, atração
de turistas, entrada de divisas e aumento
de número de brasileiros viajando
(atualmente só medimos os que viajam
de avião, não temos registro
dos que viajam por ônibus) a gente
com isso acha que estaremos colocando o
Brasil como um destino turístico
relevante no mundo como um todo. Esses seriam
os primeiros passos nesses primeiros quatro
anos.
A gente sabe pelos números da OMT
(Organização Mundial do Turismo)
que o crescimento de 2000 para 2010 é
de mais de 50% e de 2010 para 2020 é
de mais de 50% no movimento mundial de turismo.
O Brasil dispondo de um Plano Nacional do
Turismo, tendo sido criado um Ministério
do Turismo, que foi uma decisão do
presidente Lula para dar foco ao que o país
vai fazer na área de turismo entendendo
definitivamente que o turismo é uma
mola, um impulsor do desenvolvimento econômico
e social porque ao mesmo tempo que gera
emprego, distribui renda. O emprego é
disperso no país, não fica
concentrado num lugar só. Na medida
que atrai capital internacional ajudamos
também a equilibrar e a compensar
o balanço de pagamentos que é
um problema delicado do país. Nós
acreditamos que com estas metas atingidas,
o país teria uma dimensão
internacional muito maior do que tem hoje.
Obviamente para que essas metas sejam atingidas
nós vamos ter que fazer investimentos
no poder público e na iniciativa
privada. No poder público temos investimentos
chamados Prodetur, que são financiados
pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).
Temos US$ 1 bilhão na carteira de
investimentos em três programas: um
para o Nordeste de US$ 400 milhões,
um para o sul de US$ 400 milhões
e um para a Amazônia de US$ 200 milhões.
Este dinheiro será investido em quatro
anos nas áreas de infra-estrutura
como saneamento básico, rodovias,
acessos, aeroportos, segurança. Será
disponibilizado para a iniciativa privada
linhas de financiamento e participação
de fundos constitucionais, fundos de incentivo
fiscal da ordem de US$ 600 milhões
de reais por ano de financiamentos subsidiados
de longo prazo à iniciativa privada
sobretudo para pequenos e médios
empresários para que eles possam
ter financiamento para investimento e para
capital de giro, que é uma coisa
inédita no país.
Além disso, faremos um ambicioso
programa de treinamento e requalificação
da mão-de-obra usando os institutos
que o país já tem, tais como
o Sebrae (Serviço Brasileiro de Atendimento
à Pequena e Média Empresa),
o Senac (Serviço Nacional do Comércio),
as secretarias estaduais do trabalho que
manipulam os recursos do FAT (Fundo de Amparo
ao Trabalhador) e portanto elas têm
a capacidade de atender a demanda do desenvolvimento
do turismo, além das universidades.
Nós já temos praticamente
500 faculdades de turismo no Brasil que
formam quase 5 mil alunos por ano, há
entre 10 a 12 mil estudantes de turismo
hoje. Então nós acreditamos
que temos os instrumentos. Temos a vontade
política e temos o potencial. O país
é altamente gratificado pela natureza:
temos o Pantanal, a Amazônia, montanhas,
temos o patrimônio histórico,
7,5 mil Km de praias muitas delas virgens
e uma mais maravilhosa que a outra. Tudo
isso organizado em produtos turísticos
para serem colocador à disposição
dos operadores de turismo para que possam,
então, vender esses roteiros.
Qual é a estrutura do país
para receber o turista estrangeiro?
Walfrido dos Mares Guia - Até então
a estrutura existente foi organizada pela
iniciativa privada e pelos estados que nos
últimos deram prioridade ao turismo,
mas não havia uma política.
O que faltava no Brasil é uma política
nacional de turismo.Havia ações
isoladas que não se reproduziam e
nesse momento para prepararmos um turismo
receptivo adequado no Brasil temos que preparar
os destinos, fazer parceria com a iniciativa
privada, poder público local e estadual,
treinar e qualificar mão-de-obra
para depois colocar o produto na prateleira
e na medida que vamos preparar esses produtos
para receber turistas nacionais e internacionais
precisamos garantir o saneamento básico,
a sustentabilidade do meio ambiente para
evitar depredação, facilitar
o acesso. Esta é a parte difícil
do plano. O fato de se ter potencial turístico
não significa que se tem um produto
turístico. O produto é o potencial
transformado em acesso, segurança,
treinamento e incentivo aos investidores
privados. Entendendo o turismo como negócio
podemos quebrar esse ciclo de amadorismo
e pequenez nas nossas metas de turismo.
No ano passado recebemos 3,8 milhões
de turistas estrangeiros.
... Menos que o Vietnam, o que senhor
acha que justifica isso?
Walfrido dos Mares Guia - Faltava promoção,
faltava prioridade, faltava política
pública sem isso as coisas não
acontecem e é justamente o que estamos
revertendo. Na medida que o presidente da
república cria um ministério,
lança um plano, cria linhas de financiamento
para a iniciativa privada, cria um conselho
nacional de turismo, ouve o setor privado,
o setor público e coloca como prioridade
as coisas acontecem.
Além do turismo de sol e praia,
quais os outros tipos de turismo que o Brasil
pode explorar?
Walfrido dos Mares Guia - Nós vamos
promover o Brasil via diversidade cultural.
A beleza do Brasil é muito maior
na diversidade cultural do que natural e
ambiental. A música, a gastronomia,
a moda, o artesanato, a cultura, dança,
o futebol, a herança patrimonial,
a miscigenação racial, a cultura
de ser um povo pacífico e simpático,
portanto, o entendimento que o turismo é
emprego e renda vai facilitar que essa diversidade
seja promovida.
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Quase todo país do equador para
baixo tem sol e praias bonitas, mas nós
vamos mostrar tudo o que temos. Um país
que tem capacidade de produção
industrial, fabrica avião, computador,
antibiótico, tem indústria
de ponta, mas ainda tem uma distribuição
injusta de renda e o turismo é uma
das formas de quebrar esta injustiça.
Como será a divulgação
do país no exterior?
Walfrido dos Mares Guia - Vamos usar tudo
o que temos direito junto com a iniciativa
privada. Vamos trabalhar com a divulgação
do país para públicos específicos,
vamos trabalhar com operadores internacionais
de turismo, contratando-os para fazer a
divulgação e atração
de turistas. Queremos eventualmente até,
se for possível, nas licitações
nacionais incluir empresas internacionais
que possam receber remuneração
pelo número de turistas que trazem
ao Brasil. Da mesma forma como se vende
calçado, soja, café, avião:
faz-se uma promoção, vem o
agente paga-se uma gratificação
sobre a venda. Nós queremos dar uma
dimensão profissional para o turismo
no Brasil, como outros países estão
fazendo com sucesso. Não adianta
apenas fazer uma divulgação
institucional muito bonita que contamina
o espírito do futuro turista que
venha ao Brasil. Se não estiver acoplado
com as redes de operadoras de turismo, o
sujeito que viu um filme bonito sobre o
Brasil vai numa operadora e é convencido
a ir para Aruba, Cuba, Cancun porque já
tem um convênio e é natural
que seja assim e é ingenuidade alguém
querer participar desse negócio de
outra maneira.
Temos uma entidade chamada Embratur dedicada
à promoção, marketing
e apoio à comercialização
do produto turístico brasileiro visando
o público internacional.
O que indica para que quem quiser investir
no turismo brasileiro?
Walfrido dos Mares Guia - Portas abertas,
venham ao Brasil e invistam no que quiser
porque tem espaço em qualquer área:
resorts, hotéis, pousadas, restaurantes,
parques, locadoras de veículos, centros
de convenções, eventos, treinamento,
tudo tem espaço gigantesco para todos
crescer. O turismo no Brasil está
começando a acordar. Segundo dados
da OMT, o turismo é a atividade que
mais gera empregos: um em cada nove empregos.
É a atividade empresarial que mais
cresce é maior que o setor de energia,
petróleo, informática, representa
10% do PIB mundial. O Brasil representa
menos de 4%. Só esses dados mostram
que é um gigante que precisa ser
acordado para que possamos valorizar o que
nós temos.
Qual a imagem que o país vai
vender a partir de agora?
Walfrido dos Mares Guia - Uma imagem de
um país alegre, hospitaleiro, pacífico,
ordeiro que quer crescer e tem uma diversidade
cultural extraordinária para poder
oferecer ao turista. Cada lugar tem característica
peculiares. A Bahia é de um jeito,
o Rio Grande do Sul é de outro, Minas
Gerais, Amazonas, Pantanal, Rio de Janeiro
e todos falando a mesma língua, com
costumes específicos, com culturas
regionais extraordinárias, paisagens
absolutamente distintas umas das outras
e com custo barato por estarmos numa relação
cambial muito favorável ao turista
estrangeiro.
Como o senhor vê a crise mundial
do turismo devido ao terrorismo? E como
o Brasil pode superar esta adversidade?
Walfrido dos Mares Guia - No curto prazo,
o turista internacional está um pouco
assustado, mas no médio prazo, entre
dois e três anos, vão ver que
aqui não é tão longe
assim porque é possível chegar
com sete horas de viagem de Lisboa até
Fortaleza ou Recife. Os preços são
acessíveis, a qualidade do produto
turístico vai aumentar tremendamente
e isso vai ser visível. Alguns grandes
investidores estrangeiros já estão
vindo para o Brasil fazendo investimento
de centenas de milhões de dólares
de recursos próprios, são
resorts que estão sendo construídos
na Bahia, no Ceará e em Alagoas.
Algumas empresas aéreas internacionais
já estão aumentando os vôos
para cá. Por exemplo, a TAP Air Portugal
está com 29 vôos semanais para
o Brasil. AS pessoas estão descobrindo
que este é um país diverso.
A idéia agora é mostrar para
os operadores que podem trazer os turistas
para a praia, podem ficar sete dias num
resort e saber como funciona aquela cultura
regional. Além disso também
podem ir para Minas Gerais, Pantanal, Manaus,
Floresta Amazônica, o deserto do Jalapão.
Lugares maravilhosos desconhecidos inclusive
pelos brasileiros e que encanta todo mundo
que vai. Isso vai do Rio Grande do Sul até
o Amazonas. As missões, os vinhos,
as praias catarinenses, a cultura do interior
de São Paulo e do Paraná,
o crescimento do Matogrosso, as Montanhas
de Minas, Ouro Preto - cidade barroca de
300 anos sem outra igual no mundo, Diamantina,
Parati. São inúmeros destinos,
o nosso papel agora é corretamente
divulgar, desenvolver e apoiar a comercialização
disso sob forma de produto e não
apenas como curiosidade.
Existe alguma política destinada
ao turismo interno?
Walfrido dos Mares Guia - Vamos baratear
o custo do turismo interno, financiar os
operadores para poder descontar nos bancos
por meio de recebíveis a venda de
longo prazo ao cliente brasileiro para que
este possa conhecer o Brasil. Serão
vendidos destinos para o trabalhador com
renda de R$ 700 a R$ 900 por mês.
Este pessoal pode pagar em prestações
de R$ 40 a R$ 50. Se a empresa puder descontar
isso no banco com custo barato já
aumenta de maneira impensável a quantidade
de pessoas que podem viajar de ônibus,
com seus próprios carros, de trem
ou mesmo até por pequenos cruzeiros.
Há um incentivo ao desenvolvimento
das viagens internas. O turismo interno
para nós é um ponto de honra.
É fundamental que o brasileiro conheça
o Brasil. E é fundamental que o brasileiro
de classe média, média alta
e rico - que tem mania de ir para os Estados
Unidos e Europa - que também conheçam
o Brasil. Eles podem viajar pelo Brasil
e pela América do Sul porque também
estão com medo de ir para lá
também (Europa e EUA).
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