Brazil  

V.I.P. INTERVIEWS

ENTREVISTA DE WALFRIDO DOS MARES GUIA
MINISTRO DO TURISMO

BRASILIA, 28 DE ABRIL 2003


Como funciona o Plano Nacional de Turismo?

Walfrido dos Mares Guia - O Plano Nacional de Turismo contempla um conjunto de ações nos níveis federal, municipais, estaduais e pela iniciativa privada para que possamos atingir algumas metas que são extremamente desafiadoras. A primeira meta é a geração de um 1,2 milhão de empregos no Brasil. A segunda meta é atrair 9 milhões de turistas estrangeiros até 2007 que gerarão US$ 8 milhões de divisas para o país. A outra meta seria incentivar que os brasileiros aumentassem de 40 milhões para 65 milhões até 2007 o número de desembarques nos aeroportos domésticos no sentido de impulsionar de uma maneira extremamente forte o turismo interno. Nós queremos dar uma dimensão muito positiva ao brasileiro trabalhador para que possa conhecer o país.
Para que a gente consiga essas metas de geração de emprego, atração de turistas, entrada de divisas e aumento de número de brasileiros viajando (atualmente só medimos os que viajam de avião, não temos registro dos que viajam por ônibus) a gente com isso acha que estaremos colocando o Brasil como um destino turístico relevante no mundo como um todo. Esses seriam os primeiros passos nesses primeiros quatro anos.
A gente sabe pelos números da OMT (Organização Mundial do Turismo) que o crescimento de 2000 para 2010 é de mais de 50% e de 2010 para 2020 é de mais de 50% no movimento mundial de turismo. O Brasil dispondo de um Plano Nacional do Turismo, tendo sido criado um Ministério do Turismo, que foi uma decisão do presidente Lula para dar foco ao que o país vai fazer na área de turismo entendendo definitivamente que o turismo é uma mola, um impulsor do desenvolvimento econômico e social porque ao mesmo tempo que gera emprego, distribui renda. O emprego é disperso no país, não fica concentrado num lugar só. Na medida que atrai capital internacional ajudamos também a equilibrar e a compensar o balanço de pagamentos que é um problema delicado do país. Nós acreditamos que com estas metas atingidas, o país teria uma dimensão internacional muito maior do que tem hoje.
Obviamente para que essas metas sejam atingidas nós vamos ter que fazer investimentos no poder público e na iniciativa privada. No poder público temos investimentos chamados Prodetur, que são financiados pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Temos US$ 1 bilhão na carteira de investimentos em três programas: um para o Nordeste de US$ 400 milhões, um para o sul de US$ 400 milhões e um para a Amazônia de US$ 200 milhões. Este dinheiro será investido em quatro anos nas áreas de infra-estrutura como saneamento básico, rodovias, acessos, aeroportos, segurança. Será disponibilizado para a iniciativa privada linhas de financiamento e participação de fundos constitucionais, fundos de incentivo fiscal da ordem de US$ 600 milhões de reais por ano de financiamentos subsidiados de longo prazo à iniciativa privada sobretudo para pequenos e médios empresários para que eles possam ter financiamento para investimento e para capital de giro, que é uma coisa inédita no país.
Além disso, faremos um ambicioso programa de treinamento e requalificação da mão-de-obra usando os institutos que o país já tem, tais como o Sebrae (Serviço Brasileiro de Atendimento à Pequena e Média Empresa), o Senac (Serviço Nacional do Comércio), as secretarias estaduais do trabalho que manipulam os recursos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) e portanto elas têm a capacidade de atender a demanda do desenvolvimento do turismo, além das universidades. Nós já temos praticamente 500 faculdades de turismo no Brasil que formam quase 5 mil alunos por ano, há entre 10 a 12 mil estudantes de turismo hoje. Então nós acreditamos que temos os instrumentos. Temos a vontade política e temos o potencial. O país é altamente gratificado pela natureza: temos o Pantanal, a Amazônia, montanhas, temos o patrimônio histórico, 7,5 mil Km de praias muitas delas virgens e uma mais maravilhosa que a outra. Tudo isso organizado em produtos turísticos para serem colocador à disposição dos operadores de turismo para que possam, então, vender esses roteiros.

Qual é a estrutura do país para receber o turista estrangeiro?

Walfrido dos Mares Guia - Até então a estrutura existente foi organizada pela iniciativa privada e pelos estados que nos últimos deram prioridade ao turismo, mas não havia uma política. O que faltava no Brasil é uma política nacional de turismo.Havia ações isoladas que não se reproduziam e nesse momento para prepararmos um turismo receptivo adequado no Brasil temos que preparar os destinos, fazer parceria com a iniciativa privada, poder público local e estadual, treinar e qualificar mão-de-obra para depois colocar o produto na prateleira e na medida que vamos preparar esses produtos para receber turistas nacionais e internacionais precisamos garantir o saneamento básico, a sustentabilidade do meio ambiente para evitar depredação, facilitar o acesso. Esta é a parte difícil do plano. O fato de se ter potencial turístico não significa que se tem um produto turístico. O produto é o potencial transformado em acesso, segurança, treinamento e incentivo aos investidores privados. Entendendo o turismo como negócio podemos quebrar esse ciclo de amadorismo e pequenez nas nossas metas de turismo. No ano passado recebemos 3,8 milhões de turistas estrangeiros.

... Menos que o Vietnam, o que senhor acha que justifica isso?

Walfrido dos Mares Guia - Faltava promoção, faltava prioridade, faltava política pública sem isso as coisas não acontecem e é justamente o que estamos revertendo. Na medida que o presidente da república cria um ministério, lança um plano, cria linhas de financiamento para a iniciativa privada, cria um conselho nacional de turismo, ouve o setor privado, o setor público e coloca como prioridade as coisas acontecem.

Além do turismo de sol e praia, quais os outros tipos de turismo que o Brasil pode explorar?

Walfrido dos Mares Guia - Nós vamos promover o Brasil via diversidade cultural. A beleza do Brasil é muito maior na diversidade cultural do que natural e ambiental. A música, a gastronomia, a moda, o artesanato, a cultura, dança, o futebol, a herança patrimonial, a miscigenação racial, a cultura de ser um povo pacífico e simpático, portanto, o entendimento que o turismo é emprego e renda vai facilitar que essa diversidade seja promovida.




Quase todo país do equador para baixo tem sol e praias bonitas, mas nós vamos mostrar tudo o que temos. Um país que tem capacidade de produção industrial, fabrica avião, computador, antibiótico, tem indústria de ponta, mas ainda tem uma distribuição injusta de renda e o turismo é uma das formas de quebrar esta injustiça.

Como será a divulgação do país no exterior?

Walfrido dos Mares Guia - Vamos usar tudo o que temos direito junto com a iniciativa privada. Vamos trabalhar com a divulgação do país para públicos específicos, vamos trabalhar com operadores internacionais de turismo, contratando-os para fazer a divulgação e atração de turistas. Queremos eventualmente até, se for possível, nas licitações nacionais incluir empresas internacionais que possam receber remuneração pelo número de turistas que trazem ao Brasil. Da mesma forma como se vende calçado, soja, café, avião: faz-se uma promoção, vem o agente paga-se uma gratificação sobre a venda. Nós queremos dar uma dimensão profissional para o turismo no Brasil, como outros países estão fazendo com sucesso. Não adianta apenas fazer uma divulgação institucional muito bonita que contamina o espírito do futuro turista que venha ao Brasil. Se não estiver acoplado com as redes de operadoras de turismo, o sujeito que viu um filme bonito sobre o Brasil vai numa operadora e é convencido a ir para Aruba, Cuba, Cancun porque já tem um convênio e é natural que seja assim e é ingenuidade alguém querer participar desse negócio de outra maneira.
Temos uma entidade chamada Embratur dedicada à promoção, marketing e apoio à comercialização do produto turístico brasileiro visando o público internacional.

O que indica para que quem quiser investir no turismo brasileiro?

Walfrido dos Mares Guia - Portas abertas, venham ao Brasil e invistam no que quiser porque tem espaço em qualquer área: resorts, hotéis, pousadas, restaurantes, parques, locadoras de veículos, centros de convenções, eventos, treinamento, tudo tem espaço gigantesco para todos crescer. O turismo no Brasil está começando a acordar. Segundo dados da OMT, o turismo é a atividade que mais gera empregos: um em cada nove empregos. É a atividade empresarial que mais cresce é maior que o setor de energia, petróleo, informática, representa 10% do PIB mundial. O Brasil representa menos de 4%. Só esses dados mostram que é um gigante que precisa ser acordado para que possamos valorizar o que nós temos.

Qual a imagem que o país vai vender a partir de agora?

Walfrido dos Mares Guia - Uma imagem de um país alegre, hospitaleiro, pacífico, ordeiro que quer crescer e tem uma diversidade cultural extraordinária para poder oferecer ao turista. Cada lugar tem característica peculiares. A Bahia é de um jeito, o Rio Grande do Sul é de outro, Minas Gerais, Amazonas, Pantanal, Rio de Janeiro e todos falando a mesma língua, com costumes específicos, com culturas regionais extraordinárias, paisagens absolutamente distintas umas das outras e com custo barato por estarmos numa relação cambial muito favorável ao turista estrangeiro.


Como o senhor vê a crise mundial do turismo devido ao terrorismo? E como o Brasil pode superar esta adversidade?

Walfrido dos Mares Guia - No curto prazo, o turista internacional está um pouco assustado, mas no médio prazo, entre dois e três anos, vão ver que aqui não é tão longe assim porque é possível chegar com sete horas de viagem de Lisboa até Fortaleza ou Recife. Os preços são acessíveis, a qualidade do produto turístico vai aumentar tremendamente e isso vai ser visível. Alguns grandes investidores estrangeiros já estão vindo para o Brasil fazendo investimento de centenas de milhões de dólares de recursos próprios, são resorts que estão sendo construídos na Bahia, no Ceará e em Alagoas. Algumas empresas aéreas internacionais já estão aumentando os vôos para cá. Por exemplo, a TAP Air Portugal está com 29 vôos semanais para o Brasil. AS pessoas estão descobrindo que este é um país diverso. A idéia agora é mostrar para os operadores que podem trazer os turistas para a praia, podem ficar sete dias num resort e saber como funciona aquela cultura regional. Além disso também podem ir para Minas Gerais, Pantanal, Manaus, Floresta Amazônica, o deserto do Jalapão. Lugares maravilhosos desconhecidos inclusive pelos brasileiros e que encanta todo mundo que vai. Isso vai do Rio Grande do Sul até o Amazonas. As missões, os vinhos, as praias catarinenses, a cultura do interior de São Paulo e do Paraná, o crescimento do Matogrosso, as Montanhas de Minas, Ouro Preto - cidade barroca de 300 anos sem outra igual no mundo, Diamantina, Parati. São inúmeros destinos, o nosso papel agora é corretamente divulgar, desenvolver e apoiar a comercialização disso sob forma de produto e não apenas como curiosidade.

Existe alguma política destinada ao turismo interno?

Walfrido dos Mares Guia - Vamos baratear o custo do turismo interno, financiar os operadores para poder descontar nos bancos por meio de recebíveis a venda de longo prazo ao cliente brasileiro para que este possa conhecer o Brasil. Serão vendidos destinos para o trabalhador com renda de R$ 700 a R$ 900 por mês. Este pessoal pode pagar em prestações de R$ 40 a R$ 50. Se a empresa puder descontar isso no banco com custo barato já aumenta de maneira impensável a quantidade de pessoas que podem viajar de ônibus, com seus próprios carros, de trem ou mesmo até por pequenos cruzeiros. Há um incentivo ao desenvolvimento das viagens internas. O turismo interno para nós é um ponto de honra. É fundamental que o brasileiro conheça o Brasil. E é fundamental que o brasileiro de classe média, média alta e rico - que tem mania de ir para os Estados Unidos e Europa - que também conheçam o Brasil. Eles podem viajar pelo Brasil e pela América do Sul porque também estão com medo de ir para lá também (Europa e EUA).

 

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