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Como funciona o Conselho de Desenvolvimento
Econômico e Social implementado pelo
governo Luiz Inácio Lula da Silva?
Ministro Tarso Genro - O Conselho de Desenvolvimento
Econômico e Social é uma instituição
pública de caráter não
estatal composta agora - já houve
a votação no Congresso Nacional
- por 90 pessoas da sociedade civil e por
12 ministros. Ele funciona de duas formas:
a primeira é fazendo as suas reuniões
plenárias que têm suporte de
grupos temáticos que discutem os
assuntos específicos que são
destinados ao conselho pelo presidente da
república. Este tem como suporte
do seu funcionamento uma estrutura de primeiro
escalão de governo uma secretaria
de nível ministerial: a Secretaria
do Conselho de Desenvolvimento Econômico
e Social. Ele tem uma função
imediata, uma de médio prazo e de
longo curso. A função imediata
que está sendo cumprida é
a discussão de elaboração
de consenso sobre as reformas. A função
de médio curso é a discussão
de um modelo alternativo de desenvolvimento
que nós possamos transitar para ele
com estabilidade e previsibilidade sem desorganização
econômica do país, mas que
proporcione inclusão social e emprego
e altas taxas de crescimento e a sua função
estratégica é aquilo que o
presidente chama da reorganização
do contrato social brasileiro, um novo contrato
social que significa em última instância
construir um novo bloco social dirigente
composto pelas camadas populares, pelas
classes médias e por vastos setores
empresariais que tenham interesse num modelo
que combine crescimento com emprego e com
inclusão social.
Quem forma esse conselho, quase metade
dele é formado por empresários
de importantes setores econômicos
do país?
Ministro Tarso Genro - Os empresários
compõem em torno de 38% do Conselho,
o resto são intelectuais, líderes
sindicais, representantes de organizações
não governamentais e doze ministros.
Então o Conselho não é
uma representação da sociedade,
sim uma estrutura composta por indivíduos
representativos com laços sociais
reconhecidamente fortes nos setores de onde
são originários. Do ponto
de vista legal, a lei determina que ele
é estrutura de apoio das decisões
do presidente da república sobre
questões essenciais do país.
Quais os objetivos principais e como
serão colocados em prática
durante o novo governo?
Ministro Tarso Genro - O primeiro momento
é a discussão das três
reformas que foram pautadas pelo presidente:
as reformas tributária, previdenciária
e da legislação trabalhista.
Nós já cumprimos as tarefas
dessas duas primeiras reformas e o presidente
acolheu aproximadamente 80% das recomendações
do Conselho. Já está sendo
discutida a reforma trabalhistas e nós
estamos partindo para a discussão
de dois outros temas imediatos que é
o Plano Plurianual (PPA) para os próximos
quatro anos de governo, enunciados gerais
sobre como deve se comportar o orçamento
público e os investimentos no próximo
período. É isso que o plano
plurianual tem como essência. A importância
e a função da micro e pequena
empresa no desenvolvimento e emprego é
outro grupo temático. Um terceiro
grupo temático são fundamentos
econômicos e políticos de um
modelo de desenvolvimento para o Brasil.
Este ponto é o mais importante entre
os de médio curso porque leva para
um primeiro congresso nacional de concertação
social que será realizado em junho
do ano que vem, portanto, esta é
uma pauta permanente até o próximo
ano.
Como foram escolhidos os integrantes
do Conselho e qual a representatividade
delas?
Ministro Tarso Genro - O órgão
de representação da sociedade
é o Congresso Nacional. O conselho
é um órgão composto
por pessoas representativas designadas pelo
presidente da república pela sua
vocação explícita de
representação. Por exemplo,
está lá o presidente da FIESP
(Federação das Indústrias
do Estado de São Paulo), os presidentes
das centrais sindicais, eminentes intelectuais
reconhecidos no país, empresários
de grandes empresas, os cinco principais
bancos, organizações não
governamentais de caráter comunitário
e popular reconhecidas nacionalmente. Trata-se
de um órgão composto por decisão
do presidente da república e por
decisão política se o presidente
acerta na sua composição também
acerta politicamente, se ele erra o Conselho
perde a sua representação.
O que nós vimos na montagem desse
primeiro conselho, cujo mandato é
de dois anos, é que conseguiu uma
larga representatividade social e política
porque as pessoas foram bem escolhidas.
Esta é uma novidade para o país,
um governo de base trabalhista que conseguiu
reunir representantes de diversos setores
da sociedade de maneira harmoniosa, qual
a sua opinião sobre isso?
Ministro Tarso Genro - O conselho é
uma novidade institucional porque tem uma
formatação jurídica
por medida provisória e é
uma novidade política. Institui de
maneira plena, pela primeira vez na estrutura
do poder executivo, um serviço público
de caráter não estatal que
tem função estratégica,
onde as pessoas que o compõe não
estão subordinadas ao presidente
da república. Cada um assume as posições
que quiser sobre os temas que lhes são
levados. Portanto, é uma novidade
institucional, embora seja de caráter
de assessoramento e consultivo porque quem
tem poder decisório é o Congresso
Nacional. Também é novidade
política porque, no Brasil, as formas
com que sempre se resolviam os conflitos
sociais sempre se deram através da
eliminação política
ou física da parte derrotada ou através
de um processo conciliatório entre
as elites e não de um diálogo
que usasse verticalmente a sociedade, um
diálogo de classes. Então,
institui um marco normativo para que esse
diálogo de classe se dê sem
que os setores sociais percam a sua especificidade,
ideologia, projetos, mas busque pontos de
consenso fundamental para levar o país
para um outro patamar civilizatório
democrático. Portanto, é um
instrumento de concertação
social e diáologo.
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Então pode-se concluir que este
é um governo de diálogo amplo
que não defende apenas os interesses
dos trabalhadores?
Ministro Tarso Genro - É especialmente
um governo de diálogo que reconhece
que é impossível construir
uma alternativa para o país sem o
apoio de vastos setores empresariais. O
governo não tem uma visão
corporativa ou classista para acionar o
seu projeto. Pelo contrário, o governo
entende que o seu projeto é poli-classista
e para isso precisa criar instrumentos de
concertação e é o que
faz através do Conselho de Desenvolvimento
Econômico e Social.
O país está vivenciando
uma melhora nos indicadores econômicos.
O dólar está baixando, o risco
país também está em
processo de queda. O que o senhor acha que
justifica essas mudanças no cenário
econômico?
Ministro Tarso Genro - Eu acho que elas
derivam da confiabilidade política
do governo, de uma visão de longo
prazo que os agentes econômicos estão
tendo que nós vamos para um modelo
de desenvolvimento novo, mas que não
vamos romper contratos, não vamos
lesar ninguém nem criar artifícios
econômicos que resolvam as situações
econômicas e sociais por milagres.
Vamos sim fazer um transito pausado para
um modelo democrático civilizatório
avançado que reduza drasticamente
as desigualdades sociais e coloque o Brasil
como um sujeito político novo na
ordem mundial. Um país que tenha
autonomia e previsibilidade nas suas relações
com a economia global e é isso que
os agentes econômicos esperam. Mas
tudo isso é muito frágil.
Nós precisamos fazer essas reformas
para finalizar materialmente. Nós
vamos combinar essa visão de longo
prazo de natureza social distributiva com
responsabilidade fiscal, que é isso
que o governo está fazendo com essas
duas reformas fundamentais: a tributária
e a previdenciária.
Qual a segurança que o investidor
internacional tem para aplicar dinheiro
no Brasil?
Ministro Tarso Genro - A segurança
de que este governo não vai afundar
o Brasil. Porque seria afundar o projeto
que nós representamos. Nós
temos uma imensa expectativa da população
brasileira. O presidente Lula representa
uma política nova no país,
tanto é que não perdeu a sua
ligação com sua base social,
não perdeu sua relação
com a população. O presidente
não o faz de maneira populista porque
está dizendo que a transição
é difícil e que seria uma
aventura nossa jogar o país numa
situação de instabilidade.
Todos os agentes internacionais precisam
saber que o Brasil vai mudar, mas vai mudar
em cima de acordos políticos e sustentação
que vão dar credibilidade e estabilidade
para esta mudança.
Qual a estrutura que o país oferece
para quem deseja fazer investimentos diretos?
Ministro Tarso Genro - Nós temos
que, em primeiro lugar, recuperar a sanidade
fiscal do país. Isso não se
realiza somente com políticas monetaristas,
sim com políticas sociais. Um governo
para ter recursos para investir em infra-estrutura
e para manter seu projeto exportador precisa
modernizar sua economia, reduzir custos
da carência de infra-estrutura do
Brasil, deve mostrar que o estado sabe arrecadar
com sobriedade, mostrar que a médio
prazo vamos reduzir as cargas tributárias
e não aumentá-las - por isso
vamos arrecadar mais. São políticas
que, em última análise desenham
não só uma nova relação
estado-sociedade como também determinam
um horizonte mais claro para os investidores
e agentes econômicos. O projeto que
nós representamos não pode
ser construído de costas para a economia
global. Deve ser consolidado de forma integrada,
mas não de forma subordinada.
Como esse novo governo vai agir no combate
à corrupção?
Ministro Tarso Genro - Não tivemos
ainda nenhum caso de corrupção,
mas de qualquer forma temos que combater
isso com mecanismos internos de transparência
e controle. O presidente estruturou um órgão
específico para isso, já foi
aprovado pelo Congresso Nacional. Trata-se
de uma estrutura anti-corrupção
permanente no governo e temos que estar
atentos às denúncias e às
críticas da oposição
e da imprensa. Isso evidentemente ajuda
qualquer governo a fazer esse controle.
Isso é uma coisa que muda inclusive
de forma institucional. O governo tem um
ministério destinado à transparência,
à correta alocação
dos recursos e à verificação
da correção dos procedimentos
administrativos. Há um órgão
do governo específico, além,
evidentemente, das estruturas normais anteriores
que já existiam e algumas delas funcionavam
muito bem.
Qual o prêmio e porque foi destacado
na Espanha recentemente?
Ministro Tarso Genro - Recebi o prêmio
Hosapitalet, uma cidade da Catalunha que
tem uma tradição de nove anos
de distribuição dessa premiação.
Como prefeito de Porto Alegre, fui organizador
do primeiro encontro mundial de administradores
locais pela inclusão que gerou todo
um movimento, pautas de governos locais
em função da inclusão
social. Já ocorreram três eventos
desse tipo. O primeiro e o segundo foram
organizados no meu governo em Porto Alegre.
Em segundo lugar, fiz da minha cidade sede
do Fórum Social Mundial, demos toda
sustentação para que ocorresse
com tranqüilidade, harmonia e organização.
Então, fui o primeiro brasileiro
a receber esse prêmio na Catalunha
que são destinados aos governos que
representei não a mim pessoalmente.
Qual a mensagem que o senhor deixa para
a comunidade internacional?
Ministro Tarso Genro - A minha mensagem
é que, além das informações
que todo agente internacional recolhe das
agências de riscos também colhessem
informações do empresariado
local. Os grandes empresários locais
têm experiência de relacionamento
já com diversos governos e que podem
apertar o tipo de relacionamento que temos
com o empresariado e o interesse que temos
pelo desenvolvimento que não se dará
sem uma contribuição estrutural
e estruturadora da iniciativa privada.
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